sábado, 11 de dezembro de 2021

Um Sábado de Dezembro

Em frente à minha casa tem uma casa-ruína, de tão mal conservada que ela é! Meu sofá é frontal à fachada dela, onde, por uma janela, vejo, em contraste, a feiura da casa e a beleza de beija-flores que invariavelmente vêm beber a água açucarada que dispensamos a eles. Agora sentada no sofá, em um raro momento de ócio matinal de sábado (o dia mais amado, que no passado já foi um dia normal de trabalho com consultório cheio) bateu uma vontade de registar (saiu assim no corretor da terrinha), algumas sensações. 

Por meu ângulo também vejo a mesa de oito lugares, que abriga mais alguns dependendo dos queridos que recebemos. Penso que não seria exagero chamá-la de mesa das risadas ou mesa da alegria. Penso, ato contínuo, que algumas coisas na vida realmente não têm preço. Têm valor! Um valor imensurável, inestimável! A reunião com os filhos amados, e agora com suas famílias que incluem duas pessoinhas lindas, um menino e uma menina, o encontro assíduo com o subnúcleo mãe, irmã, cunhado, sobrinha (que ultimamente não tem comparecido e brincamos dizendo que ela necessita de convite especial). 

Nunca me preocupei com o passar do tempo. ´Apenas’ desejo usufruir de saúde física e mental, para (ainda) poder realizar coisas que me fazem feliz.

A tristeza vem por reconhecer, no entorno, o egoísmo de algumas pessoas. A idade realmente nem sempre agrega sabedoria. Por vezes agrega características ruins, qualidades negativas, afastamento, dor.
Cada um de nós tem uma ‘conta’ emocional de onde, queiramos ou não, serão feitas operações de crédito e de débito, de acordo com o que investimos. Se eu investi amor e cuidados, os receberei. Do contrário, (ah, do contrário…) tristeza e dor estarão a caminho. Sem saber disso, algumas pessoas só se preocupam com o que acumulam na conta bancária. 
A paz interior vem das ações exteriores, do que fazemos na vida, dos elos construídos, da doação que implementamos. Paz não vende em loja!
A felicidade que em nós habita é resultante de um trabalho contínuo de desapego do egoísmo e de atenção ao que realmente interessa.
Pensemos nisso agora. Pensemos nisso sempre! Para que no futuro possamos contemplar com tranquilidade casas-ruínas e mesmo assim e apesar disso, ter elementos felizes para contrastar com essa feia imagem e concluir: a vida é boa!

sexta-feira, 16 de julho de 2021

A Inconstância da Vida, A Imprevisibilidade da Morte e Como a Felicidade é um Luxo



Nestes tempos incertos, onde a vida é uma aposta a ser ou não concretizada, onde a morte vive à espreita como há muito tempo não ocorria, temos que pensar em formas de sermos felizes.

Parece uma sofisticação diante de tantas demandas mais urgentes mas não podemos abrir mão desse direito que temos em relação à nossa existência. Atingindo a totalidade da população do planeta, a pandemia veio para, aos que se permitem pensar, abrir a discussão para novos e necessários paradigmas do que podemos chamar de bom viver.

Ao nos debruçarmos sobre essas questões, ao nos colocarmos frente a esse cenário de tanto sofrimento e dúvida, podemos entender o que realmente importa. Obviamente essa questão é particular, para cada um de nós ela pode significar algo diferente do que é para o outro. Pela característica de ter que ser pensada subjetivamente, existe a necessidade de mergulharmos em nosso ser buscando quais são nossas expectativas, nossas necessidades e nossos desejos. Simples não é, até porque muitos de nós nunca fizeram esse exercício. Tempo temos pois a vida ainda não voltou ao 'normal' e nem mesmo sabemos se isso se dará ou mesmo a que prazo. Resta saber se há interesse e motivação visto que a pandemia nos marcou, quase indistintamente, em alguns momentos, com uma espécie de desânimo. O desinteresse de líderes políticos, as mortes, as dificuldades, o egoísmo de muitos, a desatenção ou mesmo alienação de outros, todo esse cenário concorreu para a formação do estado de como as coisas  se encontram hoje. Nesses tempos sombrios, a felicidade é um luxo quase inatingível, com exceção para os alienados, os que teimam em achar que a vida é uma bolha cor de rosa com ideais condições de temperatura e pressão.

Há a imperatividade de acordarmos! Há a necessidade de pensarmos, por mais que não saibamos por onde começar, por mais que doa, por mais que sugue nossas poucas e restantes energias. Nunca houve tempo a perder mas hoje ele é cada vez mais escasso. Qualquer semana não vivida, qualquer conversa não realizada, qualquer toque não ocorrido pode fazer a diferença. Urge que despertemos para o que realmente importa. Precisamos fazer conexões, tentar pensar, resgatar o sentido da vida e construir um caminho para alcançá-lo. Não há mais tempo para escamoteamentos, para disfarces, para meias palavras, para esconderijos. O tempo é de abertura, de denúncia, de avivamento, de vida. Há que sermos verdadeiros como nunca fomos. Com nós mesmos, com o outro, com a vida!