segunda-feira, 19 de junho de 2017

Abraçar a Vida em Causa Própria

Difícil é viver privilegiando os próprios desejos. Pessoas assim podem ser rotuladas de individualistas, de egoístas. É tênue linha que separa posturas saudáveis diante da própria vida, de posturas totalmente egoístas.
Algumas condições na vida levam a aprendizados. Relacionar-se afetivamente, ter um filho, viver em comunidade, trabalhar em conjunto... Essas são situações que servem de laboratório pra desenvolvermos um olhar mais global diante das pessoas e da existência. Situações assim nos fazem sair da casinha, desenvolver o estado de pertencimento ao mundo em que vivemos. 
Há que se trocar. Trocar experiências, trocar sorrisos, trocar afetos. Como seria a vida se a passássemos de forma isolada, sem validar a presença e a importância do outro nela?
Muitos de nós caímos na armadilha da autossuficiência. Muitos perecem na ilusão de que não precisam de nada e de ninguém. Que terrível engano! Porém, nesse emaranhado surge uma outra problemática. A seguir.
Como estabelecer um limite razoável entre o que eu, o uno, o indivíduo, a pessoa, quero para a vida, sem me perder na teia e na prisão que o individualismo exagerado cria? Como estabelecer um limite para a participação e a ingerência das pessoas em minha vida e vice-versa? Como ser bom, sem ser besta?
Vivemos em relação com as mais diversas pessoas. Pessoas legais, pessoas verdadeiras, pessoas falsas porém simpáticas, e pessoas que declaradamente não estão nem aí para nós, os famosos 'venham a nós, à vós, nada'. O que fazer para, em meio a esse panorama, adquirir a capacidade de impor limites aos vampiros que nos rodeiam, sejam eles emocionais ou materiais, sem nos transformarmos em egoístas de plantão? 
Respondendo: falando a verdade. Abrindo o jogo. Dizendo o que e como se sente. Trazendo luz à embaralhadas questões. Identificando junto a essas pessoas, o limite de seu agir.
Por vivermos em uma cultura, somos automaticamente levados à corresponder a determinados padrões de comportamento pré-determinados. É nesse panorama que cria-se a dificuldade em respeitar os próprios limites, a incapacidade de dizer não e o escancaramento de portas para as doenças e as dores físicas e emocionais.
Como promover e cultivar saúde através da imposição clara de limites ao outro? Como dizer aos exploradores, 'chega', sem melindres? 
A maioria das pessoas parece não perceber quando exageram na dose, sacrificando seus pares à circunstâncias nem um pouco agradáveis. Ser gentil faz bem, ser subserviente adoece. Do ponto de vista do explorado, sua condição chega a ser deplorável. Do ponto de vista do explorador, ao contrário, sua condição é a mais confortável já existente. Delegar tarefas ao outro e ficar na praia torna-se maravilhoso. Não me importa saber a dor e a dificuldade do outro, eu quero é resolver o meu lado. Vista grossa é o que vale quando só queremos enxergar o próprio umbigo.
Para os explorados, lembro que amanhã é um outro dia. Dia este que pode ser diferente, se você fizer valer seus desejos, se você aprender a dizer não, se você impuser os seus próprios limites. Sim, eles existem! Se você ignorá-los, seu corpo os denunciará em forma de dores e doenças. Abrace a vida em causa própria enquanto é tempo!

quinta-feira, 16 de março de 2017

As Plantações


Interessante ver como a vida é cíclica! Nela, temos a oportunidade de construir o que queremos para depois desfrutar dos resultados. Não precisamos para isso fazer grandes projetos; se acertamos na 
condução de nossos relacionamentos, já está de bom tamanho!
A vida é quase sempre justa, ao contrário do que muitos dizem. Quem planta vento, colhe tempestade, mas quem planta amor, certamente o colherá! Quando temos bons pensamentos, boas intenções, boas atitudes, sempre recebemos o mesmo em troca. O contrário é verdadeiro. Não adianta reclamar depois! É mais produtivo tentar reconhecer onde está o erro, contabilizá-lo e tentar mudar de atitude quando (e se) ainda for tempo.
Sempre tive cautela ao ver situações que aparentemente podemos julgar serem de um jeito, quando na realidade são de outro. Não devemos nunca julgar a atitude das pessoas sem antes conhecer a fundo o que as motivou a agir de determinada maneira, ou, ao contrário, a nem agir.
Todo mundo carrega um pacote de situações que indicam suas atitudes. Às vezes achamos que fulano é ingrato, sicrano é insensível, quando na verdade a pessoa foi levada àquela condição. É fácil criticar e se isentar da situação, fazendo-se de vítima. Como o Lulu, também deveríamos dizer: 'não vou pousar de vítima das circunstâncias...'
Quase sempre na situação terapêutica defrontamo-nos com o que chamamos de lugar da vítima. Muitas pessoas travam por se colocarem sempre nesse papel. 'Se estou só, é porque me abandonaram'... E o que eu concorri para isso? Será que não dei causa?
Na relação de pais/mães/filhos, observa-se muito isso; sim, porque nas relações amorosas, em geral, essas situações são facilmente resolvidas, por exemplo, com a separação. Nas relações familiares, sabe-se: não existe, ex-pai, ex-mãe, ex-filho.
Ao longo da prática clínica, já me deparei com situações absurdas de pais e mães, que a mim, muito além da insensibilidade, pairavam a burrice!
- Porque burrice, doutora? Que palavra...
Burrice pela incapacidade desse pai ou mãe perceber que aquele filho ou filha poderia, se bem tratado e amado, ser seu companheiro para toda uma vida. Mas, ao contrário, usam de autoritarismo e tirania exigindo que o filho/filha funcione do jeito que ele, pai/mãe, quer. Muitos desapoiam os filhos, são contínuos geradores de desafeto, não os ajudam, chegando até mesmo a serem mesquinhos, quando observo que o problema não está na falta de dinheiro. 
A vida é um plantação. Planta-se desde cedo para depois colher. Existe uma máxima sobre livre-arbítrio, que diz: 'cada um planta o que quer, mas terá que, rigorosamente depois, colher o que plantou!'
No auge de nossa pseudo autossuficiência, não percebemos essa verdade, depois as conseqüências chegarão. Aos velhos, só resta o lamento... Aos que estão no meio do caminho, fica o alerta!


terça-feira, 14 de março de 2017

Viver Sem Pressa

Por que existem pessoas que simplesmente não conseguem parar? Por que a vida tem que ser tão agitada? Será que realmente existiria essa necessidade ou nós criamos isso inconscientemente para atender ao que nos foi ensinado como correto? "Deus ajuda quem cedo madruga", ouvimos duzentas milhões de vezes...
Toda essa agitação está nos levando à ciladas. Não conseguimos ficar calmos, confundimos produção com tempo destinado às tarefas, confundimos quantidade de coisas a fazer/feitas, com resultados positivos. Por que temos que sempre estar fazendo alguma coisa, inclusive nos feriados? Já nos perguntamos qual o custo de tudo isso?
Viver é simples e complicado. Simples porque na origem é simples. Respiramos, vivemos, estamos aí! Complicado porque sofisticamos; porque somos uns bestas preocupados com tantas coisas e a imensa maioria delas nem nos pertencem; são heranças malditas que insistiram em nos passar em um processo chamado de ‘educativo’ mas que no fundo paira a perversão! Complicado porque parece que queremos agradar a todos: pais, filhos, chefes, amigos, os flanelinhas da rua, pessoas que fazem serviços para nós, pares afetivos. Assim, não dá pra ser feliz!
É impressionante como podemos reproduzir algo que não gostamos e que até mesmo nos maltrata! Todo cuidado é pouco...
Temos um caminho imenso a percorrer. É chegada a hora de mudar. Temos que desenvolver a consciência de que temos que privilegiar nossos desejos e necessidades. Não estamos sendo ninguém, quando vivemos nos desrespeitando, quando não fazemos nada do que queremos; mas, principalmente, quando fazemos muitas coisas que não queremos fazer, o que é muito pior! Não somos crianças regidas pelo Princípio do Prazer que aponta uma visão hedonista da vida, onde tudo é maravilhoso, porém precisamos ir em direção ao Princípio da Realidade, onde assim, poderemos capitular o que nos atinge e encontrar um meio termo onde possamos viver de forma menos dolorosa; se o que nos move é ‘fugir da dor’, não podemos nem devemos negar. É pouco? É! Mas esse reconhecimento é um primeiro passo, o começo que  precisamos, para quem sabe um dia, possamos ir em direção ao prazer.

sábado, 11 de março de 2017

Simples assim.

Morava ao lado de um buffet. Um local onde quase todo fim de semana tem festas. Um local onde pessoas vão celebrar algo, onde vão desfrutar de um momento de felicidade.
Do quarto de meus filhos (o local mais próximo desse vizinho), dava para escutar o movimento dos funcionários. Estes falam, conversam, riem, discutem. Não é possível entender o que dizem, são só sons desarticulados, mas o sabor das risadas é inegável!
Fiquei observando e pensando como é saudável trabalhar em um ambiente assim! Como é maravilhoso gostar do que se faz, ou, pelo menos,  poder desfrutar de uma certa leveza no trabalho. Aquelas pessoas, em sua maioria trabalhadores humildes, sabem ser felizes; sabem valorizar o que têm, seu dia a dia, as amizades do trabalho; às vezes penso ser esta uma sabedoria e privilégio dos mais humildes. Estes, sabem descomplicar a vida; viver os momentos sem a ansiedade muitas vezes observada nos mais abastados. Empresários estressados, proprietários (sempre temporários, embora assim não se percebam) de várias posses!
Às vezes sinto que a vida só tem um sentido maior quando se consegue viver na simplicidade. A sofisticação não é ecológica. Nem para o planeta, nem para os seres! Conheço pessoas muito ricas (financeiramente), que não têm paz. Vivem presas, desconfiadas, mal amadas, irritadas, e poderia agora elencar uma série enorme de adjetivos que combinam com as mesmas. Já ouviram falar em riqueza maldita? Seria mais ou menos isso!
Quando nos deixamos levar por efemeridades e não avistamos um projeto de vida a mais longo prazo, onde o que realmente importa são as pessoas que fazem parte dela (vida), deixamos também de identificar nossos movimentos e nossas alternativas. De que nos serve, por exemplo, o acúmulo de tantas coisas? De que 'quantidade' precisamos para sermos felizes?  Junto com estes números não virão, necessariamente desgaste, problemas? Corremos tanto atrás de quê? Estamos acumulando coisas materiais e não emocionais? O que privilegiamos está na esfera do 'dentro' ou do 'fora'? São essas questões que deveríamos estar nos fazendo, enquanto a vida passa! E essa passa muito rápido, num piscar de olhos!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Insegurança


Creio que em sua origem, o ser humano é realmente inseguro. Isso vale para todos.
Ao longo da vida, vamos construindo relações e através delas ativamos nosso sistema de segurança. Se seus pais funcionaram como facilitadores desse processo, promotores de uma saudável autoestima, certamente você será uma pessoa minimamente segura. Caso contrário, aí começam os problemas.
Observo muitas pessoas que têm uma necessidade imensa de auto-afirmação. São aquelas pessoas estilo 'não deixam passar nada', tudo é razão para um contra-argumento. Essa é uma atitude infantil, como quando crianças, em brincadeiras, sempre queremos ter a última palavra.
Na infância esse funcionamento, entre iguais, é normalmente bem tolerado, porém essa atitude na vida adulta aborrece e afasta as pessoas que são vítimas desse comportamento. Principalmente quando essas pessoas vítimas não tem porque suportar essa condição ou quando as mesmas já possuem um esclarecimento que não lhes permite entrar em confrontos baratos. Naquela fase da vida onde compreende-se que é mais inteligente somente lutar as grandes batalhas e não mais as picuinhas do dia a dia.
Antes que você se pergunte o que uma coisa tem a ver com a outra, ou seja, o que insegurança tem a ver com a descrição acima, eu respondo: TUDO!
Pessoas inseguras são aquelas que têm necessidade de confronto eterno. Desperdiçam tempo e energia com intermináveis observações, querendo com isso tanto chamar atenção dos circundantes para si, quanto alimentar seu frágil ego.
Tem tratamento? Tem solução? Sim!
Começando, como quase sempre, pelo exercício do reconhecimento desse funcionamento. Passar a vida sem se olhar é como passar a vida bobamente. Por esta razão que muitas vezes, relacionamentos terminam sem ao mesmo as partes envolvidas perceberem o porquê. A pessoa vítima simplesmente desenvolve uma necessidade imperativa de afastar-se e a pessoa agente, envolvida em sua cegueira, não consegue impedir a aceleração desse comportamento autodestrutivo e destruidor do próprio relacionamento.
Isto porque, quem muito insiste em estar sempre certo, em ter a última palavra, tende a ficar só. Agindo desta forma, a mensagem que passamos é que não precisamos de ninguém, logo, se não preciso de ninguém, devo ficar só. Este é um comportamento que indica a auto suficiência. Quem é mais atento sabe que esta é uma condição que não existe. Somos todos humanos. Seria bom se percebêssemos que nossa condição humana, nos faz querer dividir, interagir, trocar. Como diz o ditado: 'quem muito se acha, tende a ficar perdido'. E eu complemento: 'sozinho.'


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Sobre Coragem



Aristóteles disse que a coragem é a primeira de todas as qualidades humanas porque garante todas as outras. De coragem, assim como de amor, estamos todos (e sempre) precisados!
Eu, você e os demais, sem coragem nem levantamos da cama. Coragem não é um conceito épico, coragem é o nosso dia-a-dia, nosso 'feijão com arroz'.
Se definirmos coragem como algo grandioso, que nos arrebatará de uma condição atual desfavorável ou negativa, criamos algo muito distante de nós; ao contrário, se conseguimos identificar nossos pequenos atos cotidianos como atos de coragem, tudo ficará mais ameno e fácil!
Viver por si só já é um ato de coragem. Se percebermos que em várias de nossas ações a empreendemos, enfrentando situações que exigem determinação, conseguimos incluí-la como uma de nossas qualidades.
Apesar da preguiça que pode por vezes acometer, o medo que pode vir e se  instalar, os riscos ou perigos ocorridos, seguir em frente é um ato de coragem. Prosseguir sem se deixar levar pela desistência é um ato de coragem. Imaginar um futuro, seja imediato ou a longo prazo e levar adiante planos e projetos é um ato de coragem. Às vezes, a falta de coragem vem da recusa em se sair da zona de conforto. Ter coragem pressupõe inquietar-se com algo e assim partir para a mudança.
A coragem tem que vir de dentro, ser cultivada de forma individual, pois quase sempre existe alguém rondando para, direta ou indiretamente, tentar sabotar as pequenas iniciativas que definem a coragem nossa de cada dia. Como diz a música: "é preciso estar atento e forte!"
Para tudo na vida temos que ter coragem. Para amar, pois corremos o risco de sofrer. Para ter um filho, pois certamente sofreremos (cada um sabe a dor e a delícia que é ter filhos e todos os seus 'comemorativos'). Para trabalhar, é preciso ter coragem. Para empreender em um projeto novo, é preciso ter coragem. Mas, diante das incertezas da vida, parece que não nos sobram muitas alternativas. Ou seja, ou seguimos em frente, ou seguimos em frente!
Parar por medo? Parar porque não temos controle quanto aos possíveis resultados? Parar por preguiça? Mais vale uma pseudo coragem para nos apoiar do que uma declarada covardia.
Viver com coragem não faz de nós heróis; viver com coragem faz de nós sobreviventes. Ao sobreviver às dificuldades naturais, inerentes à vida, conseguimos impulsionar cada vez mais a coragem necessária para prosseguir e ampliar nossas conquistas, lembrando que estas devem se dar primeiramente à nível íntimo, pois de nada adianta ostentar uma aparência de bem-estar e felicidade com seu castelo interno desmoronando.

terça-feira, 26 de julho de 2016

A Doença É Você



Sempre falei para meus pacientes: 'não tenham raiva dos seus sintomas! Eles querem lhe mostrar algo que vocês não estão vendo!'
Há sempre uma 'boa intenção' por trás de um sintoma. O sintoma 'fala' o que a pessoa 'cala'.
A rotina do dia a dia, a busca pela tão almejada felicidade, muitas vezes nos impede de parar e avaliar nosso momento de vida. É como se ligássemos o automático e nos distanciássemos do tão necessário olhar sobre si mesmo.
O processo de reconhecimento de um sintoma nem sempre é fácil. Isso porque a maioria das pessoas confunde sintoma com doença. O sintoma é aquele alerta disparado quando algo na vida não vai bem; quando se está colocando para debaixo do tapete as insatisfações que estão assolando a vida; quando as emoções estão contidas e os desejos reprimidos.
Outra atitude que atrapalha o reconhecimento do sintoma são as formas precipitadas de tratá-los. Em geral, em um primeiro sinal de alerta, na primeira dor, a ação escolhida é abafá-la; ninguém está, inicialmente, disposto a decifrar as mensagens que o sintoma emite. Ao contrário, é comum querer rapidamente fugir da situação de desconforto; o procedimento é inverso, ou seja, usa-se toda a energia para escamotear os sintomas e então, só em último caso, depois de visitas intermináveis em especialistas médicos diversos e a realização de todos os exames sofisticados possíveis e ainda, da ingestão de um arsenal de medicamentos prescritos numa ação de ensaio e erro, é que se vai correr atrás do prejuízo, isto é, tentar entender a mensagem que o sintoma emite.
Muitas variáveis concorrem para essa situação. A primeira é que ninguém gosta minimamente de sofrer. Quanto mais rápido pudermos nos livrar de tudo aquilo que nos incomoda, melhor; tem o lobby da indústria farmacêutica, tem a opinião de terceiros, tudo isto adia o enfrentamento da situação, perde-se tempo, energia, esperança, dinheiro, mas tudo faz parte de um aprendizado, às vezes, o caminho aparentemente mais fácil não leva a bons resultados; às vezes, um certo grau  de sofrimento é necessário para conseguirmos mudar nossa maneira de enxergar nosso próprio funcionamento e também a própria vida.
A forma como tratamos nossas emoções define a facilidade ou dificuldade para o reconhecimento dos sintomas, condição primordial para o enfrentamento e remoção destes. A remoção não é o 'abafamento', a sumária exclusão; esta deve ser o caminho do entendimento de nossas verdades mais profundas, a cura!